sábado, 7 de abril de 2012

Módulo III - Convivência Democrática na Escola - Aula 4

A Convivência Democrática na Ótica dos Estudos Culturais
Professor Mário Nunes

Para o professor Mário Nunes os estudos culturais são um campo de aprendizagem para a convivência democrática. Esses estudos têm sua emergência no pós-segunda guerra mundial, na expansão do capitalismo e da indústria de massa. O fim do imperialismo inglês, substituído pela ascensão norteamericana, o aparecimento de contestação cultural no âmbito dos setores populares e dos trabalhadores, fazem surgir culturas próprias desses setores e daqueles vinculados à lutas sociais e políticas, inclusive dos povos que lutam contra a dominação colonialista. O próprio acesso às novas formas de difusão da cultura, produz um movimento contraditório de massificação e resistência.

Solano Trindade, um dos maiores poetas do Brasil, pode tem em seu perfil esse cárater de contestação descrito acima. Veja abaixo um de seus poemas mais conhecidos por denunciar ao mesmo tempo a ditadura militar e seu papel na manutenção de um modo de vida que depende da desigualdade social.

Tem gente com fome

Trem sujo da Leopoldina/ correndo correndo/pra dizer/tem gente com fome/tem gente com fome/tem gente com fome/Piiiiiiii/estação de Caxias/de novo a dizer/de novo a correr/tem gente com fome/tem gente com fome/tem gente com fome/ (...)/trem sujo da Leopoldina/correndo correndo/parece dizer/tem gente com fome/tem gente com fome/tem gente com fome/Tantas caras tristes/querendo chegar/em algum destino/em algum lugar/Trem sujo da Leopoldina/correndo correndo/parece dizer/tem gente com fome/tem gente com fome/tem gente com fome/Só nas estações/quando vai parando/lentamente começa a dizer/se tem gente com fome/dá de comer/se tem gente com fome/dá de comer/se tem gente com fome/dá de comer/Mas o freio de ar/todo autoritário/manda o trem calar/Psiuuuuuuuuu



É nessa perspectiva contestadora que o campo dos estudos culturais relacionam o conhecimento ao poder e a atuação política. Não há imparcialidade, esse é um campo que se posiciona ao lado dos oprimidos. Por isso, é um campo de estudo que rompe com o conhecimento meramente acadêmico e procura a interdisciplinaridade e chega a ser antidisciplinar.





De acordo com o professor Nunes, a escola tem funcionado como vigilante da cultura dominante, que em nada valoriza o modo de vida local e as experiências cotidianas dos alunos. Com uma prática distante da cultura local, a escola pode tornar-se distante dos interesses dos alunos e de sua comunidade. Esse isolamento produz uma oposição que pode também produzir uma perspectiva de desrespeito e sectarismo ao que é diferente e dificultar as possibilidades de hibridismo e relação positiva, respeitosa e democrática na diversidade.





A escola atua diretamente na formação das identidades dos alunos e nesse contexto de pressões homogeneizadoras e possibilidades de escolhas pessoais. As regras normatizadoras, os sitemas classificatórios que estabelecem padrões aceitáveis e as novas subjetividades que surgem desse processo globalizado e regulam as ações dos indivíduos. As práticas escolares estabelecem uma forma de governar os sujeitos desse espaço, possibilitando a ruptura com a dinâmica dominante atuando sobre a complexidade na qual está inserida e não procurando isolar-se dela.

Módulo III - Convivência Democrática na Escola - Aula 3

A globalização e seus impactos nas culturas
Professor Mário Nunes - Usp




O vídeo, de apenas 1 minuto, expressa muito bem, na forma e no conteúdo, alguns dos aspectos que o professor Mário Nunes destaca na sua aula. As tecnologias que rompem com a barreira do tempo e do espaço no âmbito das comunicações, transações comerciais, pessoais, no consumo e no contato entre as diversas culturas. Situação que dá uma sensação de rapidez, fluidez e liberdade.







O que a ilusão de liberdade de escolha esconde é o consumismo desenfreado que "mascara" um aumento da desigualdade social como nunca se viu na história humana. Vinculada às políticas neoliberais que defendem o "Estado Mínimo, ou fim do "Estado de bem-estar social", a globalização tornou o que já era desigual em uma situação de negação dos direitos humanos mínimos à sobrevivência em vários lugares do mundo. E a abundância passou, mais do que nunca, a conviver lado a lado com as situações de miséria extrema entre as pessoas de uma mesma sociedade e também entre povos e nações diversas.

No âmbito da cultura, também ocorre a valorização do consumo, a homogeneização/massificação dos produtos materiais e imateriais, culturais. Ocorre a dominação de uma cultura que é dona das indústrias de música, moda, filmes, desenhos animados, vestimenta, literária, informativa etc. A escola tem contribuído com esse processo, pois um dos objetivos centrais dessa instituição é adaptar seus alunos ao mundo contemporâneo, às novas modalidades de interação social e econômica.

A relação entre a vida local e a dinâmica global depende do contexto cultural no qual essa relação ocorre. Afeta o modo de vida criando novas identidades híbridas, mas também estímula grupos fundamentalistas que hostilizam qualquer relação com o outro. É aqui que a escola pode intervir no sentido de formar as novas gerações para a convivência democrática, sem submeter-se à lógica da adaptação acrítica e consumista.

Módulo III - Educação em Direitos Humanos - Aula 2

Origem histórica dos Direitos Humanos
Profº Solon Viola - Comitê Nacional de Educação e Direitos Humanos

O professor inicia sua exposição com a seguinte afirmação: os direitos humanos "são uma construção histórica feita pelos povos, e não necessáriamente um universo de declarações, ou um universo de leis". Ou seja, ainda que os direitos humanos se afirmem em documentos escritos, sua existência diz respeito, antes de mais nada, às necessidades humanas e pelo processo de humanização, de tornar-se humano, ao longo da história e das relações sociais que se desenvolveram. O vídeo abaixo, da Anistia Internacional, por exemplo, demonstra como ainda hoje lutamos contra a ausência de direitos humanos para amplos setores da sociedade em várias partes do mundo.



A construção de direitos humanos é um processo que dá-se com o aparecimento do homem e o processo de sua humanização. Não é um caminho linear, é contaditório e pode avançar ou retroceder no espaço e no tempo. Expressa-se e já se expressou de diversas formas, entre elas nos ritos criados desde a pré-história para a integração das novas gerações à comunidade, a nomeação, o trabalho coletivo para a sobrevivência de todos.

O direito a enterrar os mortos de sua família, de sua comunidade, foi uma questão que permeou a Antiguidade e a Idade Média, tema muito presente nas histórias e peças desses períodos como em Antígona, citada pelo professor Solon, ou na Ilíada quando o próprio rei Príamo sai de Tróia em busca do corpo de seu filho Heitor. Durante a Idade Média, geralmente havia um período de trégua para encontrar e enterrar os mortos de ambas as partes.

Temas tão antigos e, que a princípio, poderíamos considerá-los superados, nos faz pensar que em alguns aspectos, em certos momentos, a sociedade contemporânea recua a períodos tão remotos da história. Quando o professor Solon, recupera que atualmente, em vários países da América Latina, ainda temos centemas ou até milhares de mães, pais, avós, esposas, maridos e outros familiares que ainda pedem como Antígona e Príamo o direito de enterrar os seus mortos.

De acordo com as circunstâncias outros direitos foram surgindo de acordo com as necessidades humanas, inclusive a de defender com o uso da violência a sua sobrevivência humana. Em muitos momentos durante a Idade Média na Europa, os períodos de fome e doenças epidêmicas combinadas com uma altíssima concentração dos meios necessários à sobrevivência, levaram multidões à rebelião para a obtenção de comida ou de melhores condições de trabalho. Assim, como o professor Solon diz, os "direitos humanos estavam postos na constituição do mundo" e com ele se desenvolve.

Nesse processo há três momentos nos quais esses direitos passam a ser declarados formalmente:
1. Inglaterra 1689 - que tem um peso ainda pequeno pois ainda parte de uma aristocracia aburguesada.
2. Revoluções de independência na América, século XVIII - Declarações dos direitos da Nação (principalmente a dos Eua, que se tornou um símbolo da liberdade contra as metrópoles europeias) e dos cidadãos de cada país.
3.Revolução Francesa, 1789 - Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

Pela primeira vez, na história, os direitos humanos são proclamados. Seus princípios valem até hoje: Igualdade, Liberdade e Fraternidade. A partir desses princípios se hierarquiza o que é fundamental do que é secundário e se explicita os direitos do Homem e da Nação (dos povos).

A consciência, agora formal, desses direitos e os movimentos sociais e políticos, a partir do século XIX, vão demonstrando o quanto as declarações estão longe de se concretizarem. A desigualdade social, os interesses das grandes corporações industriais, comerciais e financeiras levam o mundo às grandes guerras mundiais. E os horrores das mortes e torturas em massa se destacam na prática humana. Discriminação, preconceito, genocídios, campos de concentração, bombas atômicas e armas químicas... são armas criadas e utilizadas pelas próprias nações que formalizaram as primeiras declarações de direitos humanos.

Um dos maiores horrores já vistos foi o genocídio cometido pela Bélgica no Congo.



O medo de um fim absoluto para a humanidade fez surgir a Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948. Mais, como disse o professor Solon, como uma utopia, uma construção de um desejo de resolução dos problemas humanos.

Na escola também é necessário resgatar essa discussão e trazer o sentido ético para a nossa própria vivência cotidiana, construindo uma consciência contra qualquer forma de opressão e exploração. Nesse sentido, o vídeo acima mostra uma possibilidade de trabalho no resgate de uma história que mostra como se privou de direitos humanos o povo de um território enorme, através de uma visita a um museu, também podemos fazer isso ao visitar e questionar os objetos expostos em diversos museu da nossa cidade. Afinal, e infelizmente, tivemos um genocído também em nosso território após a invasão dos portugueses no século XV.

Apresentação do Módulo III - Aula 1

As duas disciplinas apresentadas nessa aula se referem a duas questões centrais: direitos humanos e democracia e, de que modo podemos fazer desses conceitos uma prática real no cotidiano das relações escolares. Inclusive, para que o conceito não seja algo tão díspare da realidade, que se torne uma grande piada como no quadrinho da Mafalda apresentado ao lado.

Na apresentação a Professora Ana Maria Klein, da Unesp, e o professor Marcos Garcia Neira, da Usp, falaram sobre as diretrizes gerais das disciplinas "Educação e Direitos Humanos" e "Convivência Democrática" do curso Ética, Valores e Cidadania na Escola.

A primeira estará dividida em 3 partes:

1. o histórico sobre o desenvolvimento dos direitos humanos e quais são eles.
2. educação em direitos humanos, fundamentos e documentos de referência.
3. práticas de educação em direitos humanos na escola.

Antes de tudo, a professora Klein ressaltou que essa temática é recente enquanto prática efetiva, apesar de já estar em discussão desde o segundo pós-guerra. E que é uma questão centrada na informação, na dimensão prática e na difusão de valores.

Já o professor Marcos G. Neira, vai tratar, junto com outros professores convidados, da diversidade e do convívio nessa e com essa diversidade nas relações cotidianas escolares.

No primeiro momento conheceremos a fundamentação social e teórica dessa questão e seu desenvolvimento na realidade. Compreenderemos o processo de globalização até a organização do currículo com base nos estudos culturais e do multiculturalismo critíco. O professor desenvolverá a temática com base em 4 marcadores sociais fundamentais:
1. etnia.
2. culturas juvenis.
3. religião.
4. gênero.

Por fim, tratará a partir dessa compreensão teórica, de experiências e propostas práticas para o desenvolvimento da convivência democrática nas relações escolares.